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domingo, 26 de outubro de 2008

8ª Carta - Tempestade

Meu irmão,

A morte espreita-me os sonhos, ronda a caravela, agita o mar. Não consigo dormir. Tenho quatro horas para descansar, mas é impossível encontrar sossego, neste balanço infernal. Há água por todo o lado, sinto que tenho as roupas encharcadas desde sempre, a chuva atinge-nos como flechas geladas disparadas por inimigo invisível. A tempestade dura há dois dias, e estamos todos exaustos. Vou voltar mais cedo lá para fora, para combater a tormenta com as forças que me restam. Perdemos três homens, que caíram no escuro das águas. O Telúrio foi um dos que encontrou o fim no profundo do mar. Não me resta esperança de que estas cartas alguma vez cheguem a ti. É difícil escrever, o tinteiro já me caiu por duas vezes e está tudo manchado. Não posso gastar papel desta forma e prefiro não pensar em nada. Vou entregar-me à noite, que estendeu o seu negrume pelo dia, com o conluio de nuvens e ventos.

Reza pela minha alma como eu faço por ti,
Seja o que Deus quiser, que o diabo acordou,
Afonso.

terça-feira, 17 de junho de 2008

7ª Carta - Febre

Meu irmão,

É o Telúrio que escreve estas linhas. Meu único amigo aqui dentro, ele é ainda mais desprezado, nas suas virtudes, do que eu. Ele era aprendiz de caligrafista, num mosteiro perto de Braga. Os desígnios da vida juntaram-nos e ainda bem. Deus permitiu que ganhássemos afeição um ao outro, principalmente nesta última semana em que ele cuida de mim, a seguir às suas tarefas. Uma febre muito forte e vómitos malignos me tomaram, como se enviados pelo demónio. Não há mezinha do Tiago cozinheiro que me tire estes calores, não há reza do Tobias que me faça acalmar os enjoos. Dizem que durante o sono eu grito, que digo que não com a cabeça e tremo muito. Há um nome que repito, numa língua desconhecida, que alguns marinheiros que mo ouviram berrar têm medo de pronunciar, como se fosse uma maldição. Eu já fiz o Telúrio prometer que mo repete, se eu voltar a dizê-lo enquanto durmo.

Ontem caí da cama várias vezes. Abanava o barco mais que o costume e eu perdido nos meus delírios. O Telúrio veio encontrar-me no chão, ainda dormindo um sono de alucinado, e berrando que o mar é uma serpente e que a serpente me engole. Lembro-me mal das suas palavras meigas, das suas mãos a levantar-me do chão. Sei que a seguir devo ter dormido melhor. E lembro-me de um sonho. A mulher, a jovem mulher nua que me aparecia em sonhos, voltou a surgir. Falava comigo, mas a sua voz era a voz de quem fala do alto de uma montanha em noite de tempestade. Eu ouvia os sons da sua boca mas não conseguia perceber o que me dizia. Antes de desparecer como a água numa pedra quente, sorriu um sorriso muito calmo, mais velho que o seu corpo pequeno e bonito. Irmão, esta mulher não é um desenho, nem uma estátua, é a primeira mulher que vejo nua. E se é assim a beleza escondida atrás de roupas e tecidos, não encontro razão para a sombra do pecado, ou para a vergonha. Não te sei explicar isto e sei que parece blasfémia, mas àquele corpo as roupas só ofuscariam o esplendor e a pureza.

Quero sossegar-te com a amizade atenta do Telúrio. Sei que estou em boas mãos e que Deus não me abandonou à minha sorte. Peço-Lhe que te guarde como a mim e te envie quem te alivie as dores. Rezo por ti e tenho agora a quem falar da nossa infância, dos campos verdes e da mãe. Chegue a ti a força das minhas orações, já que esta carta se vai juntar às outras, como prenda adiada.

Deus te abençoe irmão querido,
Afonso.

terça-feira, 10 de junho de 2008

6ª Carta - Fôlego

Meu irmão,

Dizem que Deus me deu pouco juízo, que tenho a cabeça nas nuvens. Neste momento em que te escrevo devem estar a contar anedotas sobre a extravagância das minhas ideias. Estou certo que já encontraram mais uma alcunha para acrescentar às que já tenho, como troféus de ridicularia. Gastei algumas das minhas moedas para obter este jarro em que transporto terra. Sim, irmão adorado, por baixo do catre escondo este tesouro de louco. Quero lembrar-me que existe terra. Sujar os dedos com ela, sentir-lhe o cheiro. Dizem-me que serão semanas de mar a separar-nos de novo de terra firme. Tão breve a nossa estadia. E não consegui participar da desenfreada euforia dos outros marinheiros, cada um a procurar um canto onde beber até cair ou enrolar-se com uma mulher a troco de algumas moedas.

Confesso que foi tentação muito forte o cheiro do corpo daquelas mulheres, o atrevimento das suas maneiras, o fogo dos seus cabelos soltos. O Sancho, que agora trabalha comigo na cozinha, trouxe uma saia velha e rota. Com ela faz pantominas, à noite, que divertem os bêbados e atiçam a saudade do que é feminil e tão, tão distante que parece a memória de um sonho. Foi difícil guardar as minhas moedas e a minha honra. Esta última nem sei de que me vale, tão longe estamos de cidade ou lei que nos avise da imoralidade. A ilha só aumentou o tamanho do mar, que me inunda o coração e a alma. E os gritos da bebedeira, misturados com as vozes lascivas das mulheres, fizeram-me desgostar das minhas convicções.

Voltei a sonhar com seres femininos e suas teias de sedução e logro. Há um rosto que me assola. Tem a cara pintada e olhos como olhos de um ser muito velho. Embora tenha cara de menina, parece-me uma velha sábia, conhecedora das forças da natureza e do íntimo dos homens. De todos os corpos pecaminosos que me visitam nos sonhos é o único que está nu. E o único que não procura seduzir-me com danças e cantares. Apenas me fixa o olhar e a alma, como se quisesse entrar dentro dos meus pensamentos. Acordo sem fôlego, a pensar que esta mulher, menina, ou feiticeira existe e me conhece. Enquanto bebo um gole de rum para chamar o sono, os olhos dela surgem-me no escuro, tranquilizam-me, dizendo-me sem falar que não devo ter medo. Nos últimos dias, deito-me com algum alento, sabendo que vou sonhar com este ser mágico e desconhecido. Já não são tão desoladores e sem esperança os minutos antes de adormecer.

Meu irmão, guardo os meus tesouros, a única ligação que tenho à vida e à terra que abandonei por uma porção infinita de água. O meu sonho durante a vigília e durante o descanso, a minha terra dentro de um jarro e as cartas que te enviarei, assim que haja ensejo e oportunidade de o fazer.

Reza por mim como eu por ti,
Até que Deus nos reúna, irmão meu,

Afonso.

domingo, 11 de maio de 2008

5ª Carta - Melancolia

Irmão adorado,

Nos próximos dias deveremos chegar a terra. Espera-nos solo firme, árvores, colinas, e os mantimentos que vamos buscar. Dizem que será breve a nossa estadia. Nem um dia passará antes que voltemos ao mar. Já não enjoo como dantes, mas devo ter o que eles chamam a maleita das saudades de terra. Fico a olhar o horizonte e uma tristeza sem nome me invade os pensamentos. Até as coisas mais ridículas são motivo de melancolia. Tenho saudades da cama dura e estreita onde dormia em Lisboa, tenho saudades de cavar a terra junto à casa de nossos pais, da sede que sentia no pico do sol e de ir buscar àgua ao poço, tenho saudades da sujidade das ruas, dos bancos da taberna. Dizem que isto passa, que daqui a uns meses me crescerão escamas e serei um peixe de calças. Mas nem aprendi a nadar nem o humor de marinheiro me ajuda a enfrentar o dia.

Só hoje aconteceu ser visitado por um pensamento que agora me entristece e confunde. Guardo as cartas que já escrevi neste navio longe do alcance dos olhos. É que sei que te escrevo, que me dirijo a ti, mas que as palavras que te endereço navegam comigo ao sabor das distâncias e das tempestades. O tempo aqui é longo, lento, pesado. E existe algum alento em escrever-te. Mas nem lacre tenho para fechar as cartas. Ficam dobradas dentro de um pequeno baú partido que pedi e me cederam com um riso trocista.

Não posso ficar muito mais tempo a escrever-te. Custa-me ver o motivo do meu desânimo tão claro, em frases que não quero reler. Aceita a desculpa de que tenho de ir trabalhar. Assim que acaba a ceia há que preparar a refeição da manhã. E eu fiz amizade com o marinheiro encarregue da cozinha. Não quero desapontá-lo. Quando estiver com mais força de espírito, hei-de contar-te as anedotas sobre sereias, peixe e gaivotas que ele me tem ensinado. O Estêvão ajuda a olhar para o que me cerca com alguma leveza. O que não é tão mau assim.

Te guarde o anjo do Senhor,
Rezo pela tua saúde, irmão,

Afonso.

quinta-feira, 20 de março de 2008

4ª Carta - Náusea

Irmão da minha alma,


Não poderia prever tanto enjôo de onda, tanta tripa em agonia. Os marinheiros de muitas marés e viagens riem com vontade e despropósito da fragilidade do nosso estômago. Alivia um pouco o embaraço de novato do mar poder partilhá-lo com outros aventureiros desprevenidos e inexperientes como eu. O Pedro, que é de Trás-Os-Montes, viu o mar pela primeira vez há uma semana. Tão cedo se assombrou com o seu tamanho e balanço, logo se enfiou nele como um animal de terra apanhado numa noite de tormenta. Ele olha com olhos de medo o horizonte, que é sempre recto, sem sombra de montanha ou colina que seja.

Aqui o papel é quase tesouro. Felizmente abasteci-me em terra de material para te escrever. É duro descascar batatas como se disso dependesse a luz do dia. Trabalha-se muito e muito rápido que há bocas para alimentar e fomes para aplacar. Ainda não houve ameaça de tempestade, a não ser nos meus sonhos agitados, à noite. De resto não consigo dormir o que queria. A caravela não se compadece com a minha necessidade de descanso e balança ainda mais, parece-me, assim que me deito. Não pensei ser tão aborrecido estar onde há apenas homens. Cansam-me algumas das conversas que se repetem como se no momento atrás não se tivessem iniciado contra o que é inédito e útil. Falta-me o riso de uma mulher, o seu cheiro, a mim que não conheço beijo para além do que recordo, da nossa mãe a deitar-nos, providenciando-nos as boas noites. É de mulheres que se fala assim que há ócio e um pedaço de tempo. Mas suspeito que é a ignorância que sustenta tanta bazófia e imaginação. Dir-se-ia que são de outro mundo, muito estranho as fêmeas que aqui só vivem em histórias e piadas.

Mais duas semanas sem ver terra, meu irmão. Mais duas semanas que aqui parecerão uma dúzia. O dia é o vazio onde só vento e desolação azul preenchem algo que se veja. E ainda assim há algo de grandioso no mar, que não é o seu tamanho sem medida. Sendo água, parece ser de vida e hábitos insondáveis. E tem temperamento, humores, zangas e risos. Se tivesse um desses espíritos poéticos e sugestionáveis diria que a espuma é o mar a rir-se de nós, da nossa pequenez e falta de conhecimento do que importa para vencer o medo. E dizem os mais velhos nestas andanças que há ondas maiores que a casca de madeira que nos transporta. E que é tão fria como um susto a água em noites de tempestade.

terça-feira, 11 de março de 2008

3ª Carta - Pressa

Meu irmão na carne e em Deus,



O dono da estalagem guardará esta missiva. Ficará com ela e a obrigação de a entregar quando passar o correio. Hoje ouvi-lhe as primeiras palavras amáveis desde que cheguei. Tossiu para aclarar a voz e disse, vou sentir a tua falta, rapaz, vê se tens cuidado contigo. Deu-me uma amigável e dolorosa pancada no ombro, com a sua mão de gigante, e saiu para os seus afazeres.


Decerto adivinhas a boa nova. Consegui lugar e trabalho numa das caravelas que partem em breve. Desejo que saibas que se chama Santa Bárbara o barco, que tem o nome da nossa santa mãe. E quero que sintas, como eu no meu coração, que é deveras boa esta notícia da minha partida.


Não há tempo para aprender a arte de marinheiro. Por isso embarco como ajudante de 3ª categoria. Levo braços e força para bordo, terão préstimo lavando o chão, descascando batatas e demais coisas que a terra dá e as gentes comem, arrumando e esfregando e lavando e carregando. Agora mesmo tenho de ir, são precisas as minhas costas para transportar mantimentos para dentro dos porões.



Vou então, irmão adorado,

Te guardem os anjos,


Afonso.

quarta-feira, 5 de março de 2008

2ª Carta - Ansiedade

Meu irmão,


Sinto que se aproximam ventos de mudança. Há grande rebuliço nas ruas, tudo é agitação. Duas novas caravelas estão quase prontas e ultimam-se os preparativos que serão costumeiros por estas alturas. Não consigo dormir as horas que o corpo me pede. Tenho sonhado com mulheres que se oferecem em preparos de indecência e luxúria, demónios em forma de mulher que me cantam como sereias e me enlaçam como feras de luxo e tentação. A bestialidade dos meus sonhos tem continuidade nos monstros cuspindo fogo que saem da água como heresias abomináveis; o barco é quase sempre desfeito por tais abominações como uma folha seca nas mãos de uma criança.


Não te quero encher o pensamento de tais figuras, irmão querido. É de resto durante o dia que mais se exalta a minha imaginação. Não de demoníacas tentações ou de bestas invencíveis. O que me ocupa a inteligência é a dúvida. Serão necessários mais homens, que compensem a falta de experiência do mar com a grande elevação da sua coragem? Virá alguém a terra, a mando dos capitães, buscar homens de trabalho e empenho?


Decerto adivinhas a minha decisão, meu irmão e filho da nossa mãe adorada que Deus chamou a si. Já nada me impede a determinação de partir. Nada de mundano me prende a esta cidade, a este Portugal de miséria e de fome. Buscarei a abundância, a riqueza, ou ao menos algo de novo que me alegre a alma. Nunca bateu tão desdemido o meu coração, irmão da minha alma. Sei que sopra forte o vento lá onde não se vê terra nem esperança. E que se levantam as ondas como montanhas, perante o medo dos homens. Ouço as histórias que se contam, nas noites de muitos copos. E digo-te que mesmo que apenas um pouco do que se conta seja verdadeiro, ainda assim é de temer o que o mar e o céu produzem.


Não sei se estas missivas que te dão conta da saúde do meu corpo e da minha alma se irão interromper. Ainda que me custe privar-te das minhas palavras, anseio por hora em que te escreva em alto mar, sem saber quando poderei endereçar-te os meus pensamentos.


Sempre rezando por ti,

te encomendo a Deus,

Afonso.

sábado, 9 de fevereiro de 2008

1ª Carta - Inquietude

Meu irmão,


Lisboa é uma cidade grande, suja, cheia de pessoas e de tentações. Nesta babilónia parece-me que a grandiosidade está sempre a par da degradação. A rua em que estou a viver é a rua das tabernas, das meretrizes e dos bêbados, das arruaças, da má vida. Por enquanto consigo sustentar-me trabalhando para o dono da estalagem. Faço todo o tipo de trabalhos, desde a carpintaria, que é necessária a cada passo, pois tudo é velho e torto, até à alimentação dos animais. O Martins, como é conhecido por todos, tem três cavalos, numa pequena estrebaria. Ganhei amizade aos animais, que me ouvem os pensamentos que lhes dedico em voz alta.


Daqui até ao rio é um salto. Hoje vi partirem duas caravelas. As mulheres e as crianças ficavam para trás, enquanto os maridos e pais partiam em direcção ao horizonte. Eu não tenho mulher, e parece-me que se partisse, não deixaria para trás coração que se partisse. Tenho-te a ti, irmão, e sei que estás sempre comigo em pensamentos e orações. De noite custa-me adormecer porque imagino o que haverá do outro lado do mar. Que monstros guardarão os segredos do fim do mundo? Diz-se que a água ferve, depois de se passar do ponto que Deus nos permite conhecer, que monstros marinhos engolem as embarcações como se fossem pequenas e indefesas presas, que chove fogo, que o mar acaba num poço do tamanho do inferno. Eu não acredito nestas superstições, irmão querido.


Quando acordo, às 5 da manhã, os últimos marinheiros, em final de noite de bebedeira, voltam aos barcos. O que têm eles que eu não tenha? Que bravura, que caracter têm aqueles bêbados, que eu não tenho? Ouvi falar aqui na rua que, quando há nova caravela a preparar-se para viajar até ao seu destino desconhecido, vêm cá buscar braços fortes, homens de coragem. Já quase decidi, irmão, quando vierem novamente, estarei pronto. Não há aqui nada que me prenda. E eu quero ver o mundo. Como serão as mulheres nesses países distantes?


Deus te guarde a vida e a saúde,

Saudade tua imensa me visita,


Afonso.

terça-feira, 8 de janeiro de 2008

casa

Meu amor, vim do outro lado do horizonte. Quando estava a chegar, já as nuvens sobre o sol-poente, parou de chover. Na praia, o teu corpo, imóvel. O teu olhar que adivinhei, a conduzir-me o esforço nos remos. Houve tempestade por aqui? Vieram todas as chuvas. Sem parar. Companheiras da canção que eu repetia, dias inteiros, abrigada por todas elas, a me acompanhar. Deixei a vela em baixo. Não podemos confiar em ventos zangados. Devolvi ao mar o fôlego de que nasci. Remei. Sabia que depois das marés te encontraria. O destino dos meus dias era sonhar-te. Vigiava a ti, em tuas viagens, pedindo aos deuses toda a proteção que os céus pudessem oferecer. As noites e os dias eram uma linha toda costurada com o meu amor por ti. Não pude dormir. O mar erguia-se em ondas que me embalaram a vigília. Cuidei da flor que me ofereceste. Ei-la, com gotas de mar por orvalho. Foi o amor vela, farol e leme. E agora tenho as forças suficientes para ancorar o barco que me transportou. E poderemos remar os dois. A distância diluiu-se na espuma. Meu bem, ainda custa-me acreditar que este é o som de tua voz e me é próximo. Quero receber-te, do modo exato como ajeitei a areia, as flores, as ervas, o banho e nosso leito. Meu coração ainda incrédulo confunde tua presença com a miragem de outrora. Recebe os meus beijos, luz do meu amor, minha asa. E vê como a noite começa na proximidade da pele. Banharei o meu cansaço para me deitar em vigor, junto do teu desejo. Quero o toque de tuas mãos no meu vestido, enfeitado de alegrias, véspera de minha pele. Seja meu corpo o chão firme de teu desembarque. Sou a terra para tuas descobertas. Deixemos o barco e a viagem na ondulação do crepúsculo. Quero entrar e ver a tua alegria em aconchego e celebração. Haverá tempo para as histórias e os ecos da saudade. Agora sou todo teu, e nossa a noite que incendiaremos. Siga comigo, vamos de mãos dadas. Quero que mantenhas os olhos fechados. Te levarei para o ninho, construído com material finíssimo. Decorado com as minúcias do meu amor diário. Nossa casa, um céu terreno, onde espalhei substância de estrelas. O teu beijo de canela e hortelã preenche-me o escuro. Deixa que fiquem as velhas sandálias à porta. Sinto já toda a casa em flor, aqui o mar abre-se em frutos. Segura forte a minha mão, que tão longe estivemos um do outro. Amor dos meus sonhos, acalma este fogo sem data, essa ânsia de eras. Dá-me o primeiro beijo que esperei mil vezes. A tua boca é o estuário que sonhei como se me queimasse o céu. Teu beijo me dá o sopro de vida que me anima. Retorno ao mundo, agora existo. Tiro-te o vestido para te vestir da minha sede. Vem, daremos à pele a água doce. Fechei a porta, deixando todas as tormentas lá fora. Vem, na tua carne navegarei. Seja a primeira cascata a da água, de seguida a volúpia será a corrente dos nossos rios. Deste ponto, convido para a retirada, todas as testemunhas de minha saudade. As aves, e as flores, e as feras da noite, as sereias e seus cantos. Vem comigo, meu desejo, meu sustento, meu amor. Que a noite seja a protetora da nossa entrega. Deste lado do desejo, somos inteiros. Vivemos no exercício do amor, artífices abençoados do talento de ser. Basta escutarmos a respiração para que a sintonia com o mundo nos deixe existir, felizes. Planta a tua boca no meu corpo. Não existe o longe, o distante. Estão de partida, o mundo, as guerras e as dores. Minha boca e tua boca têm a sede dos começos. Nos protege o exército de nossos sentidos, em guarda. Fechemos a porta de casa. Tudo que existe seja apenas teu corpo sobre o meu. Aqui na orla da pele, ensaiaremos a vitalidade de todos os sonhos. Fica abolida a fronteira que o sono desenha na areia do dia. Uma onda varreu a dor, deste os nossos ventres até aos ombros da noite. Meu amado, deixemos que esta noite seja feita de celebração e bençãos. Sigamos obedientes ao nosso amor antigo. Bebe do meu prazer como eu nasço do teu. Existir é ser um sorriso no rosto do tempo. Tudo em mim foi feito para te receber. Tudo em mim é teu. Tens aqui, meu amado, o meu corpo. Minha alma e meus sonhos. Todas as vidas que eu tiver, serão sempre para encontrar-te. O mar me leva, me apresento em cada face da lua que se move. O grão do amor, só ele me desenha e encerra. Estamos indo de volta pra casa.

quinta-feira, 3 de janeiro de 2008

poesia

no silêncio, todos os elementos do desejo se conjugam numa dança da chuva primeva e brutal. aos céus clamam os pés que batem no solo. os tambores da volúpia, retesados como promessas recentes, marcam o ritmo do coração. como numa galera de nau imaterial, o compasso é ditador. o suor esgota o vigor. o oceano é a cegueira lá fora e as ondas são balanços de enjoo. todas as marés se incendiaram. as asas desfazem-se em sal. na tua ausência, a pele é a concavidade de uma cratera. acordar no meu próprio calor é acordar ao relento. o corpo desperta para a prisão de uma metáfora. sente-se no espelho da sua carne. cansa-se na desconstrução das imagens. emerge, limpo, dos mergulhos na luxúria.

quarta-feira, 2 de janeiro de 2008

pingo

em noites de maior desaforo, o corpo apetece-se a si mesmo. no escândalo da distância, a pele ecoa o teu nome em silêncio e furor. são as noites em que uivaria à lua, perseguiria o vento ou morderia a espuma das ondas, como um alucinado exercendo-se em imoderação e excesso. não fosse a generosidade conspícua e discreta das mãos, e arderia o meu corpo em desolação e exílio.

segunda-feira, 31 de dezembro de 2007

passo

começará o ano e o teu corpo longe. sei que me vou alegrar com amigos celebrando a vida, os laços que o coração sustenta, a luz que o novo dia trará. sou feliz longe de ti. não é uma necessidade, uma carência, algum tipo de incompletude, o que me faz desejar o ninho da tua voz, a proximidade da tua luz, os teus braços, a tua boca. é sentir-me completo que me faz iniciar passos na tua direcção. e algo dentro me faz intuir que não precisas de mim. não serei eu a dar sentido à tua vida. juntos construímos um planalto, um espaço novo, um calor, que não existiam. acrescentamos felicidade ao mundo. e o mundo devolve-nos energia e lucidez. na aceleração da paixão bebemos volúpia e matéria de sorrisos. é como se a dor se movesse mais lenta, assombrada com a nossa obra. não nos acompanha o passo decidido, leve, que plantamos no dia. assim, alados e luminosos, avançamos no usufruto da vida. e cada dia que nasce, inédito, é um beijo nos ombros da luz.

sexta-feira, 28 de dezembro de 2007

presença

alegrar-me durante o dia é lembrar-me de ti. quando sorrio penso no teu sorriso. se me surpreende alguma coisa, pessoa ou circunstância, penso nas palavras que te descreveriam o que me aconteceu. o teu rosto e o teu cheiro andam comigo, em imagens e sensações. umas pairando, como os sonhos antes que nos esqueçamos deles. outras habitam o coração, fazendo ninho. é sobretudo a beleza do mundo o que me institui o desejo de partilha como uma respiração, um sangue.

quinta-feira, 27 de dezembro de 2007

atmosfera

olho para o carvão nos dedos e lembro-me do teu corpo. imagino a luz na tua pele, a forma como a sombra se refugia em cada socalco. quero tentar fixar no papel os teus contornos com o mesmo optimismo ingénuo de alguém que procurasse alcançar as estrelas. com o indicador espalhar as partículas de carvão, como fotões tornados tinta, depois de mergulhar os dedos no sol. quero conhecer a geometria do teu peito, das tuas ancas, do ventre, a textura do teu cabelo, da tua carne. descobrir de olhos fechados os caminhos da saciedade das mãos. beber em ti a luz e o cio. é tão pequeno o mundo. o céu está limpo e não vejo um único avião. fosse o meu desejo a corda de um arco e poderia disparar-me como a uma seta, atravessando os céus em velocidade e precisão. poderia dizer-te a que sabem as nuvens, dar-te um beijo com fôlego de horizonte. por enquanto, aguardo, colado ao chão. obediente à gravidade, conspiro já com pássaros, anjos e todas as coisas que voam. de noite sigo as instruções desses seres alados, ao tecer as minhas asas. deste lado do desejo, o noivado dos lábios amadurece num fruto túmido e solar.

quarta-feira, 26 de dezembro de 2007

viagem

asa da minha espuma, adorada fêmea, luz nascente, vem para perto da minha boca. quero nascer-te em suor e músculo, plantar os nossos corpos na carne do dia, desaguar em esplendor. vem, minha amada, pólen dos meus sonhos, mel e sal da minha sede, minha estrela. cavalgaremos, sem domar, os desejos mais selvagens. e com o luar escorrendo na pele erqueremos a taça das ancas, brindando ao amor e à loucura. vem acender comigo o nosso leito, uma fogueira líquida desde os sexos até ao céu. vem logo, amor do meu coração, oásis dos meus olhos, mulher.

medula

desde o primeiro beijo que habitas em mim. como pulmões de um mesmo corpo, respiramos no mesmo cosmos, contribuindo em escala humana para a plenitude do espírito e o usufruto da matéria. desde que ouvi a tua voz os pássaros parecem cantar música inefável, o múrmurio do mar é um queixume de cio, todos os ruídos conspiram numa mesma sinfonia tão caótica como bela. desde que provei a tua pele que tudo me sabe a sede de ti. desde que entrei no teu corpo que o mundo cá fora me parece o caminho até à tua boca.

sexta-feira, 21 de dezembro de 2007

criatura

um ferro em brasa deixou-me marca indecifrável no ombro. antes que pudesse protestar duas garras enormes me levantaram, como a uma presa já ferida e pouco combativa. quando passei pelas nuvens, tinha-me habituado à altitude sempre crescente. quando levo a mão aos ombros, no lugar que as garras perfuraram, não encontro nada. foi-se o predador, antes de o ser. e, sobressaltado, apercebo-me que nada me impedirá de cair. com naturalidade lembro-me de bater asas, de imaginar asas, de rezar por asas. de, aflito, bater os braços como se fosse pássaro levantando voo. mas eu era homem perdendo distância do chão. caí, como uma seta cada vez mais apressada, como um fruto dos céus, demasiado longe da maturação. caí, vertiginoso e grave. e mesmo antes de sentir o chão atravessando-me os ossos, abri os olhos e levantei-me da cama, ofegante.

quinta-feira, 20 de dezembro de 2007

queda

o mundo e eu entristecemos juntos, em outono e cinzento. caem-me folhas aos pés que me constrangem a locomoção. estou despido, ao frio, de lábios gretados e dedos azuis. o vento acentua-me a imobilidade, com o seu bafo de gelo. e ainda assim não confio nas raízes, demasiado tenras e superficiais para que me alimentem ou sustenham. o solo está perto. posso cair, no tapete das folhas da minha pele, sem estrondo ou perigo assinalável. demoro a ser húmus, os pássaros desprezam os meus frutos, acumulam-se as sementes. resta-me a memória das asas, as feridas indicando onde foram arrancadas. e o eco nítido do teu calor.

terça-feira, 18 de dezembro de 2007

calor

deixa-me descalçar-te as sandálias e lavar-te os pés. farei correr na tua pele a água aquecida na lareira, perfumada com a alfazema da última colheita. deixa-me lavar-te do pó da estrada que te trouxe até aqui. nas minhas mãos os óleos para uma massagem revigorante. deixa repousar o teu olhar. aqui dentro o horizonte é coisa do íntimo. não há salteadores nem chuva, relento ou fome. deixa o teu corpo recuperar a vitalidade que lhe pertence. farei do meu peito um ninho para a diluição do teu cansaço. nos meus braços toma de empréstimo a força e a vigília, enquanto dormes sossegada. de manhã terás um banho e um beijo à tua espera. e poderás deixar o teu corpo tagarelar com o meu. há tanto que eles desejam pôr em dia.

segunda-feira, 17 de dezembro de 2007

aritmética

conheço ainda os rostos de todas as mulheres que conheci. é verdade que aromas e nomes se desvanecem. e mesmo o acelerar do coração se descompassou em relação ao ritmo da memória afectiva. se te subtrair ao conjunto de todas as mulheres fico sem nenhuma. és todas as mulheres. em ti exerço o que outros corpos me sugeriram. e esqueço na tua carne a presunção acumulada. recomeço o homem que sou. e quero apontar os homens todos que conheces. como um rio louco, que se arvorasse em mar. as águas fundas do desejo espumificam-se, minerais. se na rua um sorriso casual me fere, quero o teu ali mesmo. como quando reivindico o teu corpo, a meio de algo. se outro corpo interfere, é o teu que me sintoniza. somos uma eva, um adão, entre milhões. em nós se afirma a deflagração do tempo. e nunca sei em que lado da pele me situo, dentro de ti.