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domingo, 16 de março de 2008
terça-feira, 8 de janeiro de 2008
casa
Meu amor, vim do outro lado do horizonte. Quando estava a chegar, já as nuvens sobre o sol-poente, parou de chover. Na praia, o teu corpo, imóvel. O teu olhar que adivinhei, a conduzir-me o esforço nos remos. Houve tempestade por aqui? Vieram todas as chuvas. Sem parar. Companheiras da canção que eu repetia, dias inteiros, abrigada por todas elas, a me acompanhar. Deixei a vela em baixo. Não podemos confiar em ventos zangados. Devolvi ao mar o fôlego de que nasci. Remei. Sabia que depois das marés te encontraria. O destino dos meus dias era sonhar-te. Vigiava a ti, em tuas viagens, pedindo aos deuses toda a proteção que os céus pudessem oferecer. As noites e os dias eram uma linha toda costurada com o meu amor por ti. Não pude dormir. O mar erguia-se em ondas que me embalaram a vigília. Cuidei da flor que me ofereceste. Ei-la, com gotas de mar por orvalho. Foi o amor vela, farol e leme. E agora tenho as forças suficientes para ancorar o barco que me transportou. E poderemos remar os dois. A distância diluiu-se na espuma. Meu bem, ainda custa-me acreditar que este é o som de tua voz e me é próximo. Quero receber-te, do modo exato como ajeitei a areia, as flores, as ervas, o banho e nosso leito. Meu coração ainda incrédulo confunde tua presença com a miragem de outrora. Recebe os meus beijos, luz do meu amor, minha asa. E vê como a noite começa na proximidade da pele. Banharei o meu cansaço para me deitar em vigor, junto do teu desejo. Quero o toque de tuas mãos no meu vestido, enfeitado de alegrias, véspera de minha pele. Seja meu corpo o chão firme de teu desembarque. Sou a terra para tuas descobertas. Deixemos o barco e a viagem na ondulação do crepúsculo. Quero entrar e ver a tua alegria em aconchego e celebração. Haverá tempo para as histórias e os ecos da saudade. Agora sou todo teu, e nossa a noite que incendiaremos. Siga comigo, vamos de mãos dadas. Quero que mantenhas os olhos fechados. Te levarei para o ninho, construído com material finíssimo. Decorado com as minúcias do meu amor diário. Nossa casa, um céu terreno, onde espalhei substância de estrelas. O teu beijo de canela e hortelã preenche-me o escuro. Deixa que fiquem as velhas sandálias à porta. Sinto já toda a casa em flor, aqui o mar abre-se em frutos. Segura forte a minha mão, que tão longe estivemos um do outro. Amor dos meus sonhos, acalma este fogo sem data, essa ânsia de eras. Dá-me o primeiro beijo que esperei mil vezes. A tua boca é o estuário que sonhei como se me queimasse o céu. Teu beijo me dá o sopro de vida que me anima. Retorno ao mundo, agora existo. Tiro-te o vestido para te vestir da minha sede. Vem, daremos à pele a água doce. Fechei a porta, deixando todas as tormentas lá fora. Vem, na tua carne navegarei. Seja a primeira cascata a da água, de seguida a volúpia será a corrente dos nossos rios. Deste ponto, convido para a retirada, todas as testemunhas de minha saudade. As aves, e as flores, e as feras da noite, as sereias e seus cantos. Vem comigo, meu desejo, meu sustento, meu amor. Que a noite seja a protetora da nossa entrega. Deste lado do desejo, somos inteiros. Vivemos no exercício do amor, artífices abençoados do talento de ser. Basta escutarmos a respiração para que a sintonia com o mundo nos deixe existir, felizes. Planta a tua boca no meu corpo. Não existe o longe, o distante. Estão de partida, o mundo, as guerras e as dores. Minha boca e tua boca têm a sede dos começos. Nos protege o exército de nossos sentidos, em guarda. Fechemos a porta de casa. Tudo que existe seja apenas teu corpo sobre o meu. Aqui na orla da pele, ensaiaremos a vitalidade de todos os sonhos. Fica abolida a fronteira que o sono desenha na areia do dia. Uma onda varreu a dor, deste os nossos ventres até aos ombros da noite. Meu amado, deixemos que esta noite seja feita de celebração e bençãos. Sigamos obedientes ao nosso amor antigo. Bebe do meu prazer como eu nasço do teu. Existir é ser um sorriso no rosto do tempo. Tudo em mim foi feito para te receber. Tudo em mim é teu. Tens aqui, meu amado, o meu corpo. Minha alma e meus sonhos. Todas as vidas que eu tiver, serão sempre para encontrar-te. O mar me leva, me apresento em cada face da lua que se move. O grão do amor, só ele me desenha e encerra. Estamos indo de volta pra casa.
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