
terça-feira, 8 de janeiro de 2008
casa

segunda-feira, 7 de janeiro de 2008
nativo
como explicar isto de ser o coração o primeiro a avistar terra? terá ele algum dispositivo interno, como as aves migratórias, que o orienta e situa? sei que foi ele a dizer-me, em antecipação e folia, está para breve. disse-me ainda, se pensas que já sabes o que é ser feliz, prepara-te para seres surpreendido. e desde essa altura que o apanho pelos cantos a cantar feliz para si mesmo, de cabeça no ar. responde-me a tudo com um sorriso. habituei-me a achar-lhe piada assim vestido de pateta alegre, deliciado com tudo e mais bem disposto que um dia solarengo. já lhe desculpo esta atitude tão leve, tão grata, que ele exibe com naturalidade, ostensivamente, como se o mundo fosse um lugar maravilhoso para se existir.
sexta-feira, 4 de janeiro de 2008
motor
Ainda havia calor na lareira, feita no improviso. Algo como um ninho e repentino vôo. Louças arranjadas para o jantar de ontem. Som repetido das batidas de uma janela quase rouca. Gavetas a meio gesto, de quem saltou sem paradeiros. Sem bilhetes, restava a casa murmurando em idioma extinto. Sandálias, chale saudoso de galízias, anzol, jornal do dia, a saia rodada, caderno forrado por um veludo em névoas, chapéu enfeitado com uma flor que canta: este inventário registra o inteiro desaparecimento. A percussão constante da água em queda, som cortante no toque de um aço horizontal, arma desfeita e sem cortes. Chega o vento e move o corpo das sedas brancas, cortina drapeada. Lençóis tatuados: toda a narrativa ali disposta.
quinta-feira, 3 de janeiro de 2008
ateliê
Desfile monótono sob meu olhar perdido. A semelhança de todos os homens e mulheres que eu poderia amar. A todos eu poderia doar porções de caridade. Lavaria os pés, por anos a fio, dos peregrinos e dos solitários. Meu coração estaria inundado de amor e a todos acolheria. Daria atenção para as histórias, ainda que mal contadas. Seria a senhora da consolação. Cobriria, com o manto dos afetos, seus medos e miséria. Morreria em glórias, a milagrosa, dita. Dentro do meu peito, somente eu saberia, da doença crônica e do vazio. Os desejos calados na minha carne, furando a pele, minha alma. O esperado reencontro com teus olhos, que me livrariam da nudez. Sem ti, viajei o mundo todo sem encontrar abrigo. Meu corpo sem sombra e sem descanso. Eu, a amadora e serva de todos, buscando no deserto as águas da vida, que só em ti encontraria.
poesia
no silêncio, todos os elementos do desejo se conjugam numa dança da chuva primeva e brutal. aos céus clamam os pés que batem no solo. os tambores da volúpia, retesados como promessas recentes, marcam o ritmo do coração. como numa galera de nau imaterial, o compasso é ditador. o suor esgota o vigor. o oceano é a cegueira lá fora e as ondas são balanços de enjoo. todas as marés se incendiaram. as asas desfazem-se em sal. na tua ausência, a pele é a concavidade de uma cratera. acordar no meu próprio calor é acordar ao relento. o corpo desperta para a prisão de uma metáfora. sente-se no espelho da sua carne. cansa-se na desconstrução das imagens. emerge, limpo, dos mergulhos na luxúria.
quarta-feira, 2 de janeiro de 2008
pegadas
Decalcados, em formato raro, os pés seguiam os teus passos. Antes disso, foi o instante em que abandonei meus brinquedos de areia e desejei surpreender-te. Antecipando o momento, falava a ti, com empolgação. Saltitava próxima da franja irregular, ponto final da assembléia de ondas divergentes. Sentia prazer em ver a barra de minha saia, branca, claríssima e finamente bordada, sendo tingida pela mistura feita de água e partículas ensolaradas. A flecha já existia em planos. O destino, exímio atirador, disposto a desandar aquela manhã iluminada. Tudo ficou parado, e eu quase ouvia a orquestração desastrada de meu corpo. Veneno quente, fio travesso, linha ácida cosendo a dor em cada veia. Outros pés, outros amores. Se tua força concedia felicidade, na minha ausência, seria preciso encontrar o mensageiro, que trouxe dentro de envelopes preciosos, a quimera e seus truques. O decalque dos meus joelhos, levado pela onda. O sal do choro era todo o oceano.
pingo
em noites de maior desaforo, o corpo apetece-se a si mesmo. no escândalo da distância, a pele ecoa o teu nome em silêncio e furor. são as noites em que uivaria à lua, perseguiria o vento ou morderia a espuma das ondas, como um alucinado exercendo-se em imoderação e excesso. não fosse a generosidade conspícua e discreta das mãos, e arderia o meu corpo em desolação e exílio.
Subscrever:
Mensagens (Atom)